El Salvavidas - Tradução
Tradução de poesia nunca foi meu ponto forte. Digo ainda, poesia nunca foi meu forte. O interesse pela poesia nasce, acredito, da forma mais necessária possível: quando precisamos de versos para expressar o que de forma alguma outra expressão consegue.
Traduzir poesia nunca foi meu objetivo, caí nesse mundo de paraquedas e fiquei com um pé, uma ideia fincada nela.
Erroneamente se credita o último verso do poema a seguir ao chileno Pablo Neruda, da mesma forma que se credita qualquer frase a Clarice ou Mário Quintana. Mas pesquisando aqui e ali, me deparei com Javier Velaza Frías, autor de "El Salvavidas", doutor em Filologia Clássica e atual diretor da Facultad de Filologia de la Universitat de Barcelona - España. Além de diversos livros acadêmicos, Velaza publicou até o momento os seguintes livros de poesia: Mal de amores y latines (premio Àngel Urrutia, Pamplona, 1996), De un dios bisoño (premio José Hierro, San Sebastián de los Reyes, 1998), Los arrancados (Lumen, Barcelona 2002) e Enveses (premio Valencia, Hiperión, Madrid, 2018).
"El Salvavidas" faz parte de Los arrancados, nas pesquisas que realizei, não encontrei tradução para o português e já que estou começando a entrar nesse mundo, traduzi de forma livre o poema que tanto se cita, mas pouco se credita. Ainda há arestas a serem polidas nessa tradução, mas, aos poucos espero ir lixando e enriquecendo cada verso, embora conscientemente saiba que, como tradutores, nunca ficaremos completamente satisfeitos com os resultados.
O Salva-vidas
Não é inútil se amar,
finalmente.
Da mesma forma que adestrar serpentes, exige
técnica refinada e perder a vergonha
de atuar frente ao mundo de tapa-sexo.
E nervos de aço.
Mas amar é oficio
também saudável: sua liturgia acalma
o ócio que aliena - como soube Cátulo -
e perdeu as cidades mais felizes.
Baixo a corda bamba se dispõe - não peça
uma rede, pois tal não é possível - outra corda,
tão bamba, porém a última
tão inútil às vezes,
embaixo da qual não há nada.
E entreabre
janelas que arejam a cólera e exibem
à tua noite noites diferentes, e assim
somente o amor nos salva no fim das contas
do pior perigo conhecido:
ser sozinho - e mais nada - nós mesmos.
Por isso,
agora que tudo está dito e tenho
um lugar no país da blasfêmia,
agora que essa dor de fazer palavra
com a própria dor
ultrapassa os umbrais
do medo,
preciso do teu amor como analgésico;
que venhas com beijos de morfina me sedar,
e envolvas minha cintura com teus braços
fazendo um salva-vidas, para impedir que me afunde
com o tiro letal da tristeza;
que me vistas com vestes de esperança - já quase
não lembrava uma palavra assim -,
mesmo que fiquem largas como numa criança
fica a maior camisa do seu pai;
que administres meu esquecimento e o dom da
inconsciência;
que me abrigues de mim - meu pior inimigo
e mais tenaz -, que me faças um efúgio,
mesmo que mentira
- porque tudo é mentira
e a tua é piedosa -;
que me cubras os olhos
e digas passou, passou, passou
- mesmo que nada passe, porque nada passa -,
passou,
passou,
passou,
passou.
E se nada nos liberta da morte,
pelo menos que o amor nos salve da vida.
********
Traduzir poesia nunca foi meu objetivo, caí nesse mundo de paraquedas e fiquei com um pé, uma ideia fincada nela.
Erroneamente se credita o último verso do poema a seguir ao chileno Pablo Neruda, da mesma forma que se credita qualquer frase a Clarice ou Mário Quintana. Mas pesquisando aqui e ali, me deparei com Javier Velaza Frías, autor de "El Salvavidas", doutor em Filologia Clássica e atual diretor da Facultad de Filologia de la Universitat de Barcelona - España. Além de diversos livros acadêmicos, Velaza publicou até o momento os seguintes livros de poesia: Mal de amores y latines (premio Àngel Urrutia, Pamplona, 1996), De un dios bisoño (premio José Hierro, San Sebastián de los Reyes, 1998), Los arrancados (Lumen, Barcelona 2002) e Enveses (premio Valencia, Hiperión, Madrid, 2018).
"El Salvavidas" faz parte de Los arrancados, nas pesquisas que realizei, não encontrei tradução para o português e já que estou começando a entrar nesse mundo, traduzi de forma livre o poema que tanto se cita, mas pouco se credita. Ainda há arestas a serem polidas nessa tradução, mas, aos poucos espero ir lixando e enriquecendo cada verso, embora conscientemente saiba que, como tradutores, nunca ficaremos completamente satisfeitos com os resultados.
O Salva-vidas
Não é inútil se amar,
finalmente.
Da mesma forma que adestrar serpentes, exige
técnica refinada e perder a vergonha
de atuar frente ao mundo de tapa-sexo.
E nervos de aço.
Mas amar é oficio
também saudável: sua liturgia acalma
o ócio que aliena - como soube Cátulo -
e perdeu as cidades mais felizes.
Baixo a corda bamba se dispõe - não peça
uma rede, pois tal não é possível - outra corda,
tão bamba, porém a última
tão inútil às vezes,
embaixo da qual não há nada.
E entreabre
janelas que arejam a cólera e exibem
à tua noite noites diferentes, e assim
somente o amor nos salva no fim das contas
do pior perigo conhecido:
ser sozinho - e mais nada - nós mesmos.
Por isso,
agora que tudo está dito e tenho
um lugar no país da blasfêmia,
agora que essa dor de fazer palavra
com a própria dor
ultrapassa os umbrais
do medo,
preciso do teu amor como analgésico;
que venhas com beijos de morfina me sedar,
e envolvas minha cintura com teus braços
fazendo um salva-vidas, para impedir que me afunde
com o tiro letal da tristeza;
que me vistas com vestes de esperança - já quase
não lembrava uma palavra assim -,
mesmo que fiquem largas como numa criança
fica a maior camisa do seu pai;
que administres meu esquecimento e o dom da
inconsciência;
que me abrigues de mim - meu pior inimigo
e mais tenaz -, que me faças um efúgio,
mesmo que mentira
- porque tudo é mentira
e a tua é piedosa -;
que me cubras os olhos
e digas passou, passou, passou
- mesmo que nada passe, porque nada passa -,
passou,
passou,
passou,
passou.
E se nada nos liberta da morte,
pelo menos que o amor nos salve da vida.
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EL SALVAVIDAS
No es inútil amarse,
finalmente.
Lo mismo que amaestrar serpientes, nos exige
técnica refinada y perder la vergüenza
de actuar frente al mundo en taparrabos.
Y unos nervios de acero.
Pero amar es oficio
saludable también: su liturgia apacigua
el ocio que enajena -como supo Catulo-
y perdió a las ciudades más felices.
Bajo la cuerda floja dispone -no pidáis
una red, porque tal no es posible- otra cuerda,
tan floja, pero última
tan inútil a veces,
bajo la cual no hay nada.
Y entreabre
ventanas que te oreen la cólera y exhiban
a tu noche otras noches diferentes, y así
sólo el amor nos salva a fin de cuentas
del peligro peor que se conoce:
ser sólo -y nada más- nosotros mismos.
Por eso,
ahora que está ya dicho todo y tengo
un sitio en el país de la blasfemia,
ahora que este dolor de hacer palabra
con el propio dolor
traspasa los umbrales
del miedo,
necesito de tu amor como analgésico;
que vengas con tus besos de morfina a sedarme,
y rodees mi talle con tus brazos
haciendo un salvavidas, para impedir que me hunda
la plomada letal de la tristeza;
que me pongas vestidos de esperanza -ya casi
no recordaba una palabra así-,
aunque me queden grandes como a un niño
la camisa más grande de su padre;
que administres mi olvido y el don de la inconsciencia;
que me albergues de mí -mi enemigo peor
y más tenaz-, que me hagas un socaire,
aunque sea mentira
-porque todos es mentira
y la tuya es piadosa-;
que me tapes los ojos
y digas ya pasó, ya pasó, ya pasó
-aunque nada se pase, porque nada se pasa-,
ya pasó,
ya pasó,
ya pasó,
ya pasó.
Y si nada nos libra de la muerte,
al menos que el amor nos salve de la vida.
finalmente.
Lo mismo que amaestrar serpientes, nos exige
técnica refinada y perder la vergüenza
de actuar frente al mundo en taparrabos.
Y unos nervios de acero.
Pero amar es oficio
saludable también: su liturgia apacigua
el ocio que enajena -como supo Catulo-
y perdió a las ciudades más felices.
Bajo la cuerda floja dispone -no pidáis
una red, porque tal no es posible- otra cuerda,
tan floja, pero última
tan inútil a veces,
bajo la cual no hay nada.
Y entreabre
ventanas que te oreen la cólera y exhiban
a tu noche otras noches diferentes, y así
sólo el amor nos salva a fin de cuentas
del peligro peor que se conoce:
ser sólo -y nada más- nosotros mismos.
Por eso,
ahora que está ya dicho todo y tengo
un sitio en el país de la blasfemia,
ahora que este dolor de hacer palabra
con el propio dolor
traspasa los umbrales
del miedo,
necesito de tu amor como analgésico;
que vengas con tus besos de morfina a sedarme,
y rodees mi talle con tus brazos
haciendo un salvavidas, para impedir que me hunda
la plomada letal de la tristeza;
que me pongas vestidos de esperanza -ya casi
no recordaba una palabra así-,
aunque me queden grandes como a un niño
la camisa más grande de su padre;
que administres mi olvido y el don de la inconsciencia;
que me albergues de mí -mi enemigo peor
y más tenaz-, que me hagas un socaire,
aunque sea mentira
-porque todos es mentira
y la tuya es piadosa-;
que me tapes los ojos
y digas ya pasó, ya pasó, ya pasó
-aunque nada se pase, porque nada se pasa-,
ya pasó,
ya pasó,
ya pasó,
ya pasó.
Y si nada nos libra de la muerte,
al menos que el amor nos salve de la vida.
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