Por que Quadrinhos?

E por que não?
É de certa forma muito comum para quem decide trabalhar com quadrinhos de alguma forma que não seja "arte" (ou jornalismo de cultura pop, ou crítica mesmo) ter que se explicar toda vez, quando nos é perguntado qual nosso objeto de pesquisa. Parece que sempre tem que existir alguma justificativa mais "profunda". E geralmente ouvimos alguma coisa similar a "eu lia muitos quadrinhos quando criança" ou "sempre gostei de gibi por causa dos desenhos".
Parece que trabalhar com HQs dentro do mundo acadêmico sempre tem que ser justificado com amor, com uma paixão verdadeira, antiga e enraizada pelo gênero. Porém, ao mesmo tempo faz-se necessário explicar a seriedade dos quadrinhos, precisamos explicar o por quê deles serem importantes em diversos aspectos - sociais, linguisticos, históricos, educacionais, etc. Em todos os trabalhos acadêmicos que já li (e não são poucos, mas ainda falta muito mais) há sempre uma seção com o objetivo de dizer em palavras bem escritas "trabalhar com quadrinhos importa, olha só" antes sequer de se começar com qualquer discussão teórica pertinente. Vamos criando a mania de mostrar para o mundo a pluralidade do gênero que escolhemos pesquisar, mas não aconteceria a mesma coisa se tivéssemos decidido trabalhar com Virginia Woolf, James Joyce, Marcel Proust ou Baudelaire; nesses casos ninguém nos questionaria.
E talvez esteja na hora de percebermos que não é necessário - pelo menos não mais - perder páginas e páginas de texto discorrendo sobre a história ou a importância dos quadrinhos. Talvez esteja na hora, inclusive, de perdermos o medo da própria palavra quadrinhos e comecemos a usa-la em vez de graphic novel para parecermos inteligentes ou mais interessantes. Até porque uma graphic novel é um quadrinho, no fim das contas.

Mas, de novo, por que quadrinhos?
Nunca fui uma leitora assídua, devo confessar. Não cresci lendo HQs, nenhum super herói marcou a minha infância, não queria ser a Mulher Maravilha quando crescesse e não morria de amores pelo Batman (hoje eu morro sim). Nunca corri para a banca de revistas da minha rua para comprar o último lançamento (ainda hoje não faço isso, eles são entregues no conforto da minha casa) e não passei horas e horas com amigos discutindo quem conseguiria deixar o Hulk inconsciente. Não há, na minha justificativa aquele amor que costumamos ouvir.
Eu escolhi quadrinhos porque eram donos de uma linguagem que sempre me foi difícil de entender, eu queria ver a graça nisso tudo. Ao final, qual a diferença entre se ler um quadrinho e ver o filme? No filme temos a trilha sonora, os atores, a tensão, o movimento e no quadrinho tudo está "congelado" com falas dentro de balões que nós precisamos interpretar. Dai pensei em desenhar e sou relativamente boa - sem modéstia nenhuma a parte - mas ainda não tinha aquele instinto quadrinístico que se ganha lendo bastante, nem o dom de contar uma história com dois tipos de linguagens diferentes que se complementam, que se completam, que se ajudam e que não podem existir separadas nessa mídia. Também me dei conta que quadrinhos de super herói não eram exatamente o que eu queria para mim: eram muitos personagens, muitos desdobramentos. Então o que eu queria? descobri um leque gigante de HQs diferentes, de origens muito diversas e maravilhosas, a whole new world de complexidades.

Era tanta, mas tanta coisa que eu queria ler. Comecei a consumir tudo o que aparecia na minha frente em todas as línguas que eu sabia e me perguntei: por que isso não chega em português? quais as dificuldades para que chegue aqui? mas principalmente: será que traduzir quadrinhos é se restringir ao balão de fala, sendo que há nas páginas tanta informação que guia nossa leitura e interpretação?

E foi assim que escolhi não traduzir, mas tentar ajudar quem traduz, pensar sobre isso, enxergar os quadrinhos com a individualidade própria do gênero, ir além do texto escrito, ir além da página. E me dei conta que há muitas formas de se traduzir um simples "this is the part when I hit you" na voz do Batman ou um "je veux aller chez moi" num Bastien Vivès e que nossas escolhas são definidas por muito mais do que está restrito no espaço de um balão, onde até o espaço em branco grita forte.

Por isso quadrinhos e não Woolf, por isso quadrinhos e não poesia. Porque pela linguagem curiosa que existe dentro deles, eles falam comigo mais forte. Talvez seja outro tipo de amor que nutro por eles. Mas que há amor agora, isso há.

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