Sobre a prática tradutória e outras pedras no caminho da teoria
Quando decidimos entrar no caminho da tradução, seja em pesquisa ou prática, raramente nos damos conta das implicações que nosso trabalho, quando chega aos olhos do leitor, pode ter em cada um deles: seja uma frase impactante da obra, seja um ponto final, uma onomatopéia, uma sacadinha interessante ou um descuido que resultou em uma tradução mais ou menos. E era isso que me apavorava no inicio. Acredito que todos os tradutores por mais experientes que possam ser, sentem o mesmo medo e insegurança quando passam os olhos por um trecho obscuro ou percebem que estiveram traduzindo errado o significado de certa palavra em uma obra em particular, cujo autor decidiu que essa palavra carregaria sentidos diferentes nas suas frases. Graças a isso, não é de hoje que a prática de tradução está atrelada quase em sua totalidade ao pensar tradutório. É quase impossível não pensar no que estamos fazendo de forma analítica, questionando cada trecho antes de, finalmente, assinar a tradução final. Sempre há algo que poderia ter sido melhor. É nossa decisão e escolha, é nossa renuncia e nossa perda, é aquilo que o texto ganha ao nascer em outra cultura e o que perde nessa passagem tão violenta. É um pedacinho nosso que fica nesse texto intrincado aos fios narrativos ou teóricos do nosso autor e nossa apropriação dessas palavras. Porque querendo ou não, a gente cria, transforma, transmuta, recria, personifica palavras no que nós chamamos de "equivalência" e essa teia se torna tão nossa como é do autor. E como é difícil aceitar tudo isso. Quem decide trilhar a tradução partindo pelo estudo teórico antes de botar a mão no texto, se depara com infinitas formas de pensar o ato tradutório, desde manuais para o bem traduzir até complexas teorias de interpretação que nos fazem pensar que devemos quase que obrigatoriamente nos encaixar em algum lugar no meio. Mas é depois, quando o texto nos encara preto no branco que percebemos que cada página nos presenteará com uma teoria das que estudamos, mesmo que "contrárias" uma da outra e que ao mesmo tempo em que estrangerizar parece a melhor ideia, na frase seguinte a domesticação se faz necessária.
A teoria nos ilumina e nos dificulta, mas o mais importante, nos faz pensar. Nos faz refletir sobre qual projeto tradutório vamos criar, trair e apegar, nos faz questiona-la - o que é maravilhoso, pois como, se não questionando, é que criaremos novas teorias? - e nos faz confiar de olhos fechados.
***
Hoje me dediquei quase que por inteiro à tradução de teoria, principalmente de um material que vai ser de grande ajuda para a tese de doutorado que está começando a tomar nova forma. Poderia apenas ter lido o texto, claro, mas aprendi nos meus anos engatinhando pelo mundo da tradução, que a leitura de um tradutor é a mais atenta que pode existir (e vocês podem até tentar discordar de mim, mas tentem traduzir um texto que precisam estudar). Assim, espero poder ler esse texto até decorá-lo e espero que após publicado, vocês possam ler também.
No meio do texto teórico, que não precisa ser rebuscado mas nesse caso é, me deparei com um dos usos ambíguos de palavras que mencionei no inicio da primeira parte desse texto. Uma das minhas opções guia para o lado da obviedade, de algo que deve acontecer mas não é o destino. Já a segunda opção tradutória puxa para o lado da inevitabilidade, de algo que está invariavelmente fadado a acontecer. Isso numa mesma palavra, numa mesma frase, num texto altamente teórico não deixa de ser filosófico. Não sei bem o que fazer com aquela palavra e está marcada de roxo no texto traduzido, quase gritando contra o branco da página que ela precisa ser revisitada, refletida e que algo nela deve se perder. Essa palavra me fez escrever muitas mais aqui e é isso que me refiro quando digo que o ato de se levar um texto de uma língua-cultura para outra é muitíssimo mais do que achar equivalentes, independente do nosso texto.
A teoria nos ilumina e nos dificulta, mas o mais importante, nos faz pensar. Nos faz refletir sobre qual projeto tradutório vamos criar, trair e apegar, nos faz questiona-la - o que é maravilhoso, pois como, se não questionando, é que criaremos novas teorias? - e nos faz confiar de olhos fechados.
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Hoje me dediquei quase que por inteiro à tradução de teoria, principalmente de um material que vai ser de grande ajuda para a tese de doutorado que está começando a tomar nova forma. Poderia apenas ter lido o texto, claro, mas aprendi nos meus anos engatinhando pelo mundo da tradução, que a leitura de um tradutor é a mais atenta que pode existir (e vocês podem até tentar discordar de mim, mas tentem traduzir um texto que precisam estudar). Assim, espero poder ler esse texto até decorá-lo e espero que após publicado, vocês possam ler também.
No meio do texto teórico, que não precisa ser rebuscado mas nesse caso é, me deparei com um dos usos ambíguos de palavras que mencionei no inicio da primeira parte desse texto. Uma das minhas opções guia para o lado da obviedade, de algo que deve acontecer mas não é o destino. Já a segunda opção tradutória puxa para o lado da inevitabilidade, de algo que está invariavelmente fadado a acontecer. Isso numa mesma palavra, numa mesma frase, num texto altamente teórico não deixa de ser filosófico. Não sei bem o que fazer com aquela palavra e está marcada de roxo no texto traduzido, quase gritando contra o branco da página que ela precisa ser revisitada, refletida e que algo nela deve se perder. Essa palavra me fez escrever muitas mais aqui e é isso que me refiro quando digo que o ato de se levar um texto de uma língua-cultura para outra é muitíssimo mais do que achar equivalentes, independente do nosso texto.
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