Pet Sematary - Mataram O Cemitério?

"Às vezes, morto é melhor" - frase do livro de King faz jus quase perfeitamente à tentativa de se fazer um remake.

Sempre fui muito fã do Stephen King. Talvez porque depois de ler Poe tenha sido o primeiro autor "contemporâneo" de terror que parou nas minhas mãos. E Pet Sematary (1983) foi o primeiro que li. Claro que não parei por ai, li tudo que consegui numa avidez que me fez dar um tempo e tentar ler outros autores e lamentavelmente para mim, há muito ainda que não consegui ter tempo de me dedicar.
Pouco tempo depois fui atrás das adaptações cinematográficas das obras de King e foi ai que começou meu desespero: eram péssimas. Tirando O Iluminado que me deixou com um trauma permanente do Jack Nicholson, todos os filmes achei terríveis.

Apenas esses dias atrás fui me dar conta que a adaptação de Pet Sematary de 1989 é maravilhosa se comparada à recém estreada.

Não me entendam mal, o filme é bem feitinho. Mas não convenceu.

Pesquiso quadrinhos desde 2014 e em algum momento tive que entrar nos estudos de adaptação, isso me fez compreender muitas coisas que antigamente costumava criticar quando uma obra que amava era adaptada para o cinema, neste caso específico não é diferente: é necessário entender que uma mudança de mídia automaticamente acarreta mudanças em alguns aspectos da obra original. No caso de Pet Sematary o filme de 2019 abre muitas discussões que, embora abordadas por King no livro, tendem a ficar mais fortes quando colocadas cinematograficamente.
Uma das características que Stephen King traz na sua escrita (e acredito que seja isso que me cativou) é que além do terror puro, isto é, sangue, assombrações, vampiros e zumbis, ele consegue captar outro tipo de terror muito mais sutil e muito mais assustador: o terror real, as coisas que nos assombram no dia a dia, os pensamentos que não nos atrevemos a ter até que nos são apresentados preto no branco, direto na frente dos olhos.

Resumo rapidinho do livro: A  família Creed se muda pra Ludlow, uma cidadezinha pacata cortada por uma estrada onde camiões Orinco passam constantemente. Louis, Rachel, Ellie, Gage e Chuchill chegam na nova casa e se deparam com uma trilha que desvendam juntos com o vizinho idoso, Jud, chegando a um cemitério de bichos. O cemitério tem uma estranha barreira e um clima assustador, mesmo tendo sido criado por crianças que faz anos enterram ali seus bichinhos de estimação. É nesse cenário, após a morte do gato Churchill que nos deparamos com o trauma e ponto central de uma história que parece banal: a discussão sobre a morte e quais limites o ser humano está disposto a atravessar para não ter que enfrentá-la. O trauma vivido por Rachel aumenta quando Gage é atingido por um caminhão da estrada e morre. O luto, a luta da família e principalmente o trauma de se perder alguém que amamos, a dor, são explorados de forma pungente numa obra que é considerada uma das melhores do autor.

A discussão sobre a morte fica latente no filme quando percebida pelo olhar do pai, Louis, que perde sua filha mais velha, Ellie. No livro originalmente é a morte do filho mais novo - Gage - que desencadeia a série de eventos que focam muito mais no terror gore do que na reflexão da morte.
Uma coisa positiva do filme é o desenvolvimento dos terrores de Rachel, a mãe, que tendo passado por um trauma com a morte da irmã Zelda na infância - que ficou péssima no filme de 2019 considerando que tenta se distanciar das origens gore do original - precisa encarar a nova realidade apavorante que a rodeia. Porém não é suficiente para aprofundar em nenhum tipo de discussão. A inversão das mortes serve apenas para que a atuação da filha mais velha fique em evidência, destruindo uma parte da linearidade que é tão importante no livro: a destruição da inocência (tanto do amor parental quanto da própria criança ressuscitada que volta à vida diabólica) e os limites de um apego irracional à vida.
De forma geral, como terror que discute um tema pesado como a morte e como lidamos com ela, ficou somente a reflexão: o medo, o terror, o desconhecido e o assustador se perderam na vontade de fazer um remake que ficasse próximo ao original mas que não competisse com o filme de 89. E não compete mesmo. Tanto no livro quanto no primeiro filme, o gato Churchill (primeiro a voltar à vida graças ao cemitério) e o próprio Sematery me deixaram sem dormir por alguns dias, no filme desse ano me causaram risadas.
O filme de 1989 foca muito mais no terror gráfico após a ressurreição de Gage, o fato de ser uma criança de 4 anos que volta à vida com instintos assassinos é uma narrativa que, embora muito explorada, é certeira: a inocência é totalmente perdida e quem considerávamos ser o mais puro dos seres, se corrompe. A morte de uma criança que mal aprendeu a falar é sempre impactante e acredito que traz muito mais peso à história como um todo para se falar de um trauma. Não que a morte de Ellie no filme de 2019, uma criança de 10 anos não seja impactante, mas ela se desenvolve melhor e suas ações parecem muito mais pensadas, pairando entre o infantil e cômico. Todo o cenário deixa a desejar, o próprio lugar que deveria ser intimidador, o cemitério, é tão cheio de efeitos que não é possível se adentrar no aterrador que deve ser pisar num lugar assim. Jud, que é o vizinho idoso que apresenta a possibilidade da ressurreição a Louis também não ganha muito destaque.

Percebe-se que o objetivo do filme era realmente lidar com o trauma, as cores frias com poucos contrastes em vermelho realçam esse ponto de vista, pode-se dizer que a ideia foi boa, a execução, no entanto, ficou fraca, rasa e com atuações que não se destacam. Se afastou do gore para tentar atingir um ponto que ficou pairando no ar.

Eu, que amo Stephen King e acompanho da melhor forma possível seu trabalho e derivados, estou bem feliz de não ter gastado um centavo vendo um filme preguiçoso, pouco impactante e dispensável, no cinema.

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