Rimas Y Leyendas e a coragem de traduzir do espanhol romântico tardío.

Gustavo Adolfo Claudio Domínguez Bastida - conhecido mundialmente como Gustavo Adolfo Becquer foi um poeta e escritor castelhano. Faleceu aos 32 anos dia 22 de dezembro de 1870. Romântico tardio, alcançou a fama póstuma com seu livro Rimas y Leyendas, compilado de poemas dispersos e relatos que o transformaram em um dos maiores expoentes da literatura hispana. 

Tendo sido meu primeiro contato com poesia aos 7 anos - e também com narrativas de terror -, guardo na memória a incompreensão do que de fato se tratavam os poemas que minha mãe lia vez o outra, carregada de emoção. E é quase na idade do Gustavo que posso por fim me dar ao luxo de tentar uma tradução livre, bem livre, dos poemas que tanto me marcaram em abençoada ignorância. Todos eles contidos em Rimas y Leyendas.


XXX 


Espiava dos seus olhos uma lágrima,

dos meus lábios uma frase de perdão;

falou o orgulho e se enxugou o choro,

e a frase  nos meus lábios faleceu.


Eu vou por um caminho, ela por outro;

mas ao pensar em nosso mutuo amor,

eu ainda digo: "por que calei naquele dia?"

e ela dirá: "por que não chorei eu?"

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LX


Minha vida é terreno baldio,

flor que toco se desfolha;

e em meu caminho fatal

alguém vá a semear o mal

para que eu o recolha.

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XXXI

Nossa paixão foi trágico sainete

em cuja absurda fábula

o cômico e o grave confusos

risos e choro arrancam.


Mas foi o pior daquela história

que, ao fim da jornada

para ela restaram lágrimas e risadas

e para mim, somente as lágrimas!

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XLII

Quando me contaram senti o frio

de uma folha de aço nas entranhas;

me apoiei contra o muro e, por um instante

perdi consciência de onde estava


   Caiu sobre meu espirito a noite;

em ira e piedade atulhou-se a alma...

e foi então que entendi o por quê se chora,

e foi então que entendi por quê se mata! 



Passou a nuvem de dor... Com tristeza

consegui balbuciar breves palavras...

Quem me deu a noticia?... Um fiel amigo...

Me fez um grande favor!...Eu disse obrigado.


Confesso que hoje, e apesar do saudosismo que envolve esses poemas, não me envolve na aura de elevada poesia, nem me cativa o linguajar de Gustavo como outrora, talvez porque se sua leitura em espanhol me parecia exótica (comparado ao espanhol que me era costume no Chile), hoje me causa estranheza sua simplicidade para com o português brasileiro, talvez por questões estilísticas, não sei. Mas provavelmente paguei finalmente a dívida que tinha com sua poesia ao traduzi-la exatamente por ter sido a porta que se abriu para que hoje possa não ter coragem de traduzir poesia e deixe o ofício para os profissionais em poesia.

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